Sou blogueira, sou guerreira! (Update)

(Infelizmente A Manuela perdeu a luta contra o câncer em outubro deste ano)

Descobri o nódulo em Agosto de 2011, mas já sentia há bastante tempo, eu confundi com leite empedrado, não dei a devida importância, não conseguia marcar médico por causa do trabalho, e o diagnóstico foi tardio.

Sou Manuela Nygaard tenho 28 anos, atualmente não trabalho, parei por causa do câncer. Eu trabalhava com vendas, estava entrando no ramo imobiliário. Minha vida financeira está uma porcaria, não posso trabalhar, não tinha carteira assinada, logo não tenho direito a benefícios. Me trato pelo SUS, tenho tido sorte com o tratamento (transporte gratuito, hospital de qualidade, etc). Sou blogueira ha quase 3 anos.

Tenho amplo histórico de câncer na família. Papai morreu quando eu tinha 7 anos com câncer de próstata. No dia em que fiz a ultrassom que diagnosticou meu câncer eu só lembrava isso: meu filho estava prestes a fazer 6 anos, assim como eu quando papai foi diagnosticado.

 “Passei uma semana chorando, achando que iria morrer e deixar meu filho órfão”

Depois que o susto passou me dei conta de que poderia lutar, que mesmo se perdesse a luta deveria deixar um exemplo pro meu filho e é isso que eu faço. É difícil, tem horas em que realmente a dor e a dúvida abatem, mas é preciso, não há opção.

Mamãe não consegue olhar pro meu seio. Eu fui mostrar pra ela super feliz por ter tido uma melhora visível no aspecto (meu seio está deformado por causa do câncer) e ela chorou.

Meu filho sente claro, não demonstra tanto, mas sente. Ele leva tudo na brincadeira, natural de uma criança. Quando raspei a cabeça o pai dele brincou fazendo um moicano e ele se divertiu bastante. Eu tento amenizar ao máximo pra ele, mesmo ele dizendo que não se importa eu notei que a minha careca o incomodava, por isso pedi á Fundação Laço Rosa uma peruca, e o brilho nos olhos dele e a alegria ao me ver buscá-lo na porta da escola com aquela peruca me fizeram nunca mais querer sair de casa com ele sem ela.

Meu marido e eu estávamos em crise ha vários meses (talvez anos). No fatídico dia da ultra eu havia pedido a separação. Mas continuávamos morando juntos. Após o diagnóstico, cedendo à pressão de todos e ao sentimento, nos reconciliamos. No final de Abril nos separamos novamente. Passamos uma semana separados, voltamos e estamos melhor do que nunca.

“Existe sexo e desejo sim após o câncer! É diferente, muito diferente!”

Às vezes a minha autoestima está tão baixa que eu não consigo ficar sem blusa perto do meu marido (ainda não operei, mas meu seio está muito deformado). Depois que recebi a peruca por várias vezes eu tenho usado pra namorar com meu marido.

“São pequenos detalhes que nos faz sentir mais mulher”

O cabelo, os seios são símbolos da sexualidade feminina e são eles os mais afetados, por muitas vezes eu me pego triste, por várias me permiti chorar, mas não me deixo abater. Tenho consciência de que a minha qualidade de vida com o câncer pode piorar muito se eu me deixar abater.

“Não sou tão forte quanto falam”

Poderia chorar me lamentar, mas estou procurando algo para ocupar a minha cabeça e não permitir que a dor seja mais forte do que a minha vontade de vencer. Vejo muitas mulheres com câncer deprimidas, pra baixo. Eu também fico pra baixo, me deprimo, mas penso em primeiro lugar em vencer.

“Não há vitória sem luta e não há luta sem esforço”

Meu câncer é do tipo Carcinoma Ductal Infiltrantequando iniciei meu tratamento eu tinha grandes chances de fazer uma cirurgia conservadora, tirar somente um pedaço do peito  mas a quimioterapia não teve o efeito esperado e hoje já é falada na possibilidade de uma cirurgia radical, tirar o seio inteiro e reconstruir posteriormente.

Tenho ovários micropolicisticos. Nunca menstruei dois meses seguidos na mesma data, depois que comecei a quimioterapia todo dia 1 a minha menstruação vem! Por que to falando isso? Porque eu uma menina nova, 28 anos, com problemas hormonais esta com câncer e após o tratamento o problema hormonal se regularizou. Alguma ligação há nisso.

E de fato conforme diagnosticado em exames meu câncer é alimentado por hormônios, o que deve me render cinco anos de medicação pós-cirurgia pra evitar que o câncer volte. Provavelmente após isso estarei infértil e na menopausa, isso antes dos 35 anos, eu não sonho em ser mãe novamente, até porque perdi três bebês. Não quero passar por isso novamente, mas já vi muitos casos de mulheres jovens como eu que ainda não tem filhos e que não tem condições de pagar 20 mil pra ter os óvulos congelados (isso no banco de óvulos mais barato, o valor pode duplicar). Isso de fato é desesperador.

O câncer nos deforma de diversas formas, engordei 6 quilos, tem mulheres que engordam o dobro disso. Sem contar a perda dos cabelos, a tristeza, muitas vezes o marido não compreende nem apoia como deveria, a autoestima é muito abalada.

Procuro o tempo todo me animar, levantar o meu astral. Quando sinto que não estou bem me arrumo, em casa mesmo, maquilo, ponho a peruca, me perfumo tudo pra me sentir melhor. Quando percebi o poder de um batom e um rímel nunca mais me deixei abater.

Minha mãe cuida da casa, do meu filho, provê boa parte do sustento da família, e agradeço muito por isso. Se fossemos somente meu marido e eu não sei se daria conta. Muita não tem a sorte de poder contar com uma mãe por perto como eu tenho.

“É difícil lidar com os sentimento alheios”

Eu vejo a dor na minha mãe por me ver assim, assim como naqueles que são mais próximos. E é frustrante não poder fazer nada para impedir, saber que eu sou o motivo da dor deles.

Graças a Deus nesses últimos meses pude contar com minhas amigas virtuais e reais, conheci mulheres maravilhosas que me ajudaram muito, me levantam quando eu caio, me ajudam a não me abater. A amizade, mesmo que de longe (por telefone, internet) é valiosa e pode ajudar muito.

Cercar-nos de pessoas positivas e de bem com a vida, mesmo que de longe, ajuda a nos mantermos pra cima. Mesmo com tanto apoio é doloroso quando eu olho nos grupos de apoio virtual dos quais participo e vejo que alguém piorou ou morreu. Ou ainda quando se abate uma depressão coletiva e todas começam a se lamentar e chorar juntas, são momentos difíceis, mas necessários não devem ser evitados e sim superados.

Quer saber uma coisa que me incomoda?

Outras pessoas que não sabem lidar com o diferente, assim que raspei a cabeça eu saia na rua, na cara e na coragem “carecona”. Não me incomodava nem me envergonhava só que as pessoas não sabem lidar com o diferente. E por algumas vezes andando na rua com a minha mãe eu a via reclamando das pessoas olhando, falando alto mesmo e isso me incomodou. Comecei a perceber que incomodava meu filho também, daí em diante evitava sair de casa de dia, só saia a noite de lenço.

Uma situação que me incomodou bastante foi ver uma vizinha que estudou com meu filho ano passado assustada ao me ver careca. É só uma criança, mas me deixou assustada, assim como também me incomodou pessoas que se importaram mais com a perda do meu cabelo do que comigo.

 Nesses meses de tratamento eu tenho passado a maior parte do meu tempo no computador, no Facebook, cuidando dos meus blogs, vendo noticias, etc. Nunca fui muito de sair, mas ultimamente eu tenho me forçado a sair de casa. Comecei a caminhar, sempre que aquento (até pra diminuir os malefícios da quimioterapia). Tenho assumido compromissos com meu filho, tipo levá-lo ao futebol ao invés do pai, tenho ido buscá-lo na escola, tenho tentado até frequentar mercados e lojas (que confesso ainda me deixam desconfortável pelo grande volume de pessoas, tenho medo que alguém esbarre em mim e machuque meu seio).

“Só quero enfatizar uma coisa: tenho que ser forte, mas não sou. Há uma enorme diferença no psicológico da gente”

Não acho que devemos tentar ser fortes sozinhas. Existem associações, grupos de apoio (como os Neuróticos Anônimos que conheci a pouco e que ajuda muitas pessoas), grupos virtuais mesmo (como o Amigas do Peito) em que podemos nos ancorar e encontrar forças.

Uma coisa importante: o trabalho das ONGS e associações, ou até mesmo de profissionais independentes que se esforçam em ajudar a causa do câncer de mama. Esses portos seguros tão importantes são desconhecidos pela maioria das mulheres, não tem o apoio e a divulgação necessária, mas tem enorme potencial de ajuda.

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Publicado em novembro 24, 2012, em Na luta e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. 15 Comentários.

  1. Querida adorei!
    Fico feliz de você trazer minhas história pois as vezes uma pequena coisa que dizemos pode ajudar muito outra pessoa.
    Beijos!

  2. Tacila Peixoto da Silva

    Quando li, chorei. Uma história digna de compartilhamentos. Ela é uma referência. Que bom que tive a oportunidade de ler essa bela história de luta e superação.

  3. História de garra e força!!Maravilha de depoimento e muito útil pra outras pessoas! beijos,chica

  4. luciene gregorio

    manu vc e dez sua historia e td p/ nos mulheres que nos deparamos com a situação na hr da doença,graças ha DEUS vc esta ai com sua mamy tem tido apoio de pessoas que verdadeiramente gostam de vc,não esta sendo egoista,tentando esconder de tds a sua doença e tão bom compartilhar esse momento com vc fk me imaginando no seu lugar sera que teria essa garra??? talvez,não sei o dia-dia e dificil a dor e terrivél mas como te disse nada como uma dipirona/morfininha p/ acalmar irmã tenha fé e coragem DEUS esta ao seu lado cordenando td,tudo ficara bem,fk na paz,na luz,de jesus nosso pai maior!

  5. EU tbm tenho.. essa doença a mesma da sua, eu não sei muitooo o q falar.. mais eu gostaria muitoooo de ser sua amiga,,… meu face.. Denise Azevedo … bjosss,,

  6. Boa noite

    Descobrir que estou com câncer de mama do mesmo tipo que o seu há 23 dias, dia 6 de novembro vou retirar a mama toda e fazer a reconstruçao, após isso início a quimioterapia, gostaria se possível manter contato com você, caso tenha interesse me. manda um e mail
    beijos
    fica com Deus

  7. hj 29.10.13 recebi a noticia do mastologista que a biopicia deu carcinona ductal infiltrante, pirei né, isso foi a tarde agora a noite achei o blog e então amanha começarei minha bateria de novos exames Vamo lá

  8. marilleny santos

    Parabéns…Aplausos !!! Por determinação…beijos linda

  9. vaniamar justo medeiros

    Obrigada por contar sua história,sempre nos emociona,ainda mais q ue tenho uma irmã passando por tudo isso,ela retirou a mama e está sendo muito dificil pra ela,vou mostrar sua mensagem,para que ela encontre força para superar tudo isso…vc está linda assim como minha irmã,bjs e muita paz no seu coração…

  10. Eliane querida!!!Te
    nha sempre muita fé em Deus, ele pode tudo e tenha uma certeza: “TUDO NA VIDA PASSA”!!!!!!!!!!!!!!!!!!Amanhã com certeza será outro dia!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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