Psicóloga explica por que é importante pensar sobre a morte

Pensar sobre a morte nos faz deparar com o fato de que as coisas são finitas e de que somos impotentes diante disso. A finitude e a impotência são aspectos nada confortáveis de entrar em contato, mas necessário. Woody Allen disse uma vez: “Não é que eu tenha medo de morrer, eu apenas não quero estar lá quando acontecer“. Às vezes consciência da mortalidade pode ser um pouco assustadora, ou tornar a vida parece um pouco sombria.

Segundo a psicóloga do Instituto de Reabilitação Física, Camila Vasco, à medida que pensamos sobre a morte, nos vemos não negando o assunto, o que já é algo positivo, e podemos ter uma possibilidade de elaborar determinados conteúdos relacionados a ela, inclusive de pensar sobre possíveis situações que geralmente não se aborda, justamente por não termos uma “educação para a morte”, tais como: desejo de doar órgãos, rituais de passagem que gostaria de ter, coisas que deseja realizar em sua existência, revisão dos projetos de vida, entre outros aspectos, muitas vezes não ditos. “É comum tal comportamento, mas pensar a respeito do tema pode ser construtivo do ponto de vista que pode gerar novos planejamentos e até mesmo certo fortalecimento para lidar com essa questão em sua vida”, afirma ela.

Um estudo de 2008 publicado no Personality e Social Psychology Bulletin mostra que pensar sobre a morte também pode promover melhores opções de saúde, como o uso de protetor solar mais, fumando menos, tornando-se mais ativos e até mesmo realizar auto-exames.

já uma pesquisa da Universidade de Otago até sugere que mesmo pessoas não religiosas ficam mais receptivas a uma crença inconscientemente quando pensam na morte (pois conscientemente se declaram mais céticas), enquanto os religiosos ficam ainda mais crentes.

“É preciso pensar na morte, mas sem fazer da morte um drama” (Mao Tsé-tung)

Confira abaixo, a entrevista concedida pela psicóloga Camila Vasco à Viviane Lima, para o blog Lágrimas no Céu.

Viviane Lima: Pensar sobre a morte pode fazer com que as pessoas a aceitem melhor?

Camila Vasco: Não necessariamente é algo garantido de ocorrer. A morte é uma certeza na vida de todas as pessoas, e não aprendemos a falar dela e a lidar, o que gera mais sofrimento. Cada vez mais percebemos que a sociedade vem modificando os rituais e encurtando o tempo de contato com a perda, o que pode não ser saudável, dificultar o enfrentamento e prolongar o processo de luto. Portanto, pensar sobre o assunto, dependendo da situação e do momento de vida no qual a pessoa está, pode ser uma fonte de ajuda para experiências posteriores e melhor aceitação, porém não se descarta o fato de poder ser também algo que gere grande angústia.

 VL: Que tipo de problema pensar sobre a morte pode gerar?

CV: Como tudo na vida, pensar na morte também tem seu lado positivo e negativo. Os pensamentos a respeito da morte podem gerar grande angústia, entre outros sentimentos desconfortáveis, no entanto a atenção deve-se voltar à intensidade e frequência desses sentimentos. Pensar sobre a morte é diferente de viver esperando que ela ocorra no minuto seguinte e sofrer a todo momento com isso, ou seja, ficar remoendo e só pensando sobre ela, pode gerar um estado de ansiedade ou até mesmo melancolia e fazer com a pessoa não consiga se concentrar em outras situações. O alerta deve ser quanto a não se sentir paralisado diante desses pensamentos e, é válido ressaltar que, se os pensamentos se tornam recorrentes e se percebe uma maior mobilização interna, provavelmente há conteúdos latentes anteriores, e então recorrer à psicoterapia pode ser uma alternativa importante para aprofundar melhor esses conteúdos.

VL: Pessoas que não possuem nenhuma religião,ficam mais suscetíveis a aceitar algum tipo de crença?

CV: É muito comum nesse momento a pessoa fazer promessas e pactos diante do desespero. Isso justifica o fato de, muitas vezes, mesmo pessoas sem uma crença religiosa, buscarem negociar até com o que não lhes é comum, como uma tentativa de reaver a situação, sendo essa também uma maneira de se sentirem no controle, vindo a perceber posteriormente que é um controle ilusório.

VL: Manter uma crença que ajude o indivíduo a gerenciar os sentimentos em relação a morte, é importante?

CV: A pessoa tendo aquilo em que acredita como uma verdade para ela, fará com que pense no assunto e avalie a situação a partir disso, podendo lhe ser confortante.

Publicado em setembro 28, 2012, em Especialista e marcado como , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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